Eis então que recebo um e-mail de uma amiga que já há algum tempo retoma um assunto que é comum a muitos assuntos que ouço por aí, em botecos de esquerda, em livros de direita, em ancestrais, em pós-modernos (ultra-modernos é um conceito mais adequado): os paradigmas caíram e agora ninguém sabe o que fazer, não há mais valores, não há mais moral - "Deus morreu, Marx morreu e eu não me sinto muito bem" como disse muito bem um banheiro da filosofia. Eis a nova tese: a linguagem morreu. Quando no passado havia poesia e as palavras eram perigosas, lutava-se contra a repressão, criando rupturas; hoje, não há com o que romper, mas uma missão árdua, a de se fazer ouvir, a de tornar viva a linguagem, de fazê-la, ao modo alquímico, tornar-se ouro e mais, ser vista como ouro.
Mas, creio eu entender que o problema está mal colocado. Pelo exame dos fatos, confirma-se a Torre de Babel (a qual o Pedrão já alerta há um bom tempo). Inclusive, podemos pegar esse blog como exemplo. Aqui, colocamos justamente essas questões contemporâneas em evidência, todo esse papo já foi demasiadamente tratado aqui - se apenas as pessoas lessem... mas é fácil se esquivar. Talvez meus textos sejam ininteligíveis. Por que? De duas uma: ou não fazem sentido, ou as perguntas as quais respondem não foram feitas por ninguém (que tenha lido o blog).
O que quero dizer são duas coisas: 1- Se existe um problema de linguagem, não se trata meramente de um problema de expressão ou da rigidez da língua e da gramática, mas, antes, de um problema de relação, de
conexión- não se fala a mesma língua por que, por mais que o mundo seja um, holísitco e tal, vivemos vários mundos diferentes. Significa dizer que o mundo é um , mas as realidades são tantas e tantas, porque, de uma maneira interessante, temos a liberdade, individual, de acreditarmos no que quisermos - sem qualquer restrição. Isso se refere a uma questão Bergson-deleuziana, que afirma que a realidade nada mais é do que a seleção de problemas. A vida (física e espiritual) se desenvolve selecionando problemas e criando jeitos de resolvê-los. Assim ,quando acreditamos em algo, mais profundamente, adquirimos (sem perceber) os problemas resolvidos pela crença. Tentamos solucionar problemas que nem sabemos quais são, este é o primeiro ponto; 2- a disseminação da informação é tão absurda que, pela falta de termos nossos problemas selecionados, tudo serve, o que quer dizer que nada serve.
Nada faz muito sentido, então começamos a copiar e colar as informações num imenso textão (física quântica e amor, ciência e calendário maia, profecias e aquecimento global e assim por diante) que em si não quer dizer nada. Dá uma segurançazinha de que estamos então entendendo alguma coisa, prontos para criar um mundo novo, através da arte.
Aí, dentro do software livre ou da Microsoft mesmo, vamos escrevendo mil textos. Dizemos que falta espírito coletivo, que falta amor, que falta ligação com a natureza, que falta isso e aquilo e inventamos um monte de jeitos para fazer um mundo melhor (Agenda XXI, Carta da Terra, Desenvolvimento Sustentável, Ecovilas, Abraço Coletivo, Amizade incondicional e impessoal...) Digo pela última vez: ESSES SÃO PROBLEMAS QUE NÃO NOS PERTENCEM! Podem até vir a serem nossos, mas não antes de serem criados, selecionados. (As notícias, sem dúvida, são uma estratégia foderosa para ficar jogando problemas para cima de nós, insolúveis - PORQUE NÃO SÃO NOSSOS). Acho que devo esclarecer esse ponto: problema seu não é um problema sobre a sua vida, "quem vai pagar as contas?; e eu que estou triste?; mas e meus filhos?; ainda bem que é você e não eu!", mas problemas que atravessem você, que você tenha o
insight e diga "Nossa! Descobri um problema" - mesmo que ele já esteja aí há muito tempo.
Corre-se o risco de sumirem, por isso, todos os interlocutores. Aí, cada um se vira como pode. Uns tem fé, e esperam pacientemente até que alguém apareça. Outros, inventam interlocutores (tipo um amigo imaginário, ou uma multidão imaginária pra falar alto e levantando os braços, ou com cada um em uma hora). Há ainda aqueles que mandam cartas para si mesmos e outros que falam para qualquer um como se fosse para si. Aí as pessoas vão pinçando umas frases, copiando e colando no seu textão próprio e está tudo resolvido. São os ossos do ofício. Infelizmente, talvez tenhamos que nos explicar bastante, já que cada palavra pode significar tantas coisas - mas ainda assim, sorridentes diremos: "Estamos aqui para isso".